terça-feira, 10 de novembro de 2009

Como Foi - Festival Dosol (Primeiro Dia)



Parabéns à produção do festival, poucas vezes no meio do rock independente brasileiro um evento começa pontualmente às 15h30, não deu nem pra chegar para pegar a última música dos
FLAMING DOGS. Segundo Hugo Morais (site O Inimigo), a banda teve pequenos problemas com o pedal do bumbo, o que deixou a apresentação meio tensa, mas a banda ainda vai ter muita chance no futuro breve, caso continue com seus riffs rápidos e rockão básico, uma espécie de versão natalense dos Hellacopters.
Na sequência, o DRIVEOUT tocou para um público pequeno, mandando seu recado para a turma que os chama de “emocore”. O vocalista Vini estava quase sem fôlego depois de cantar as composições que misturam dedilhados, paradinhas estratégicas, gritos e sussurros. O baterista da banda arrebenta tudo e mais um pouco.
Para o VENICE UNDER WATER, a plateia já havia chegado em bom número no palco do Centro Cultural Dosol para observar e contemplar a sonoridade ianque que emana das cordas e vozes do agora quinteto. Leia-se Incubus, Sparta e quetais. Neste momento, o som estava muito bom para os vocais e as guitarras em menor volume, mas a banda deu seu recado, tocando as faixas de sua recém-lançada compilação.
No palco do Armazém Hall, uma figura um tanto quanto alienígena – vestido de uniforme verde ecológico, lencinho com caveira e capacete personalizado – e munido apenas de uma guitarra vagabunda e um notebook de última geração (olha o contraste!) cantava sobre estar cansado do mundo e queria “um barato novo”. Ele parecia mais um trintão/quarentão que a mãe não deixou que ele tocasse em banda de rock quando era adolescente e agora inventou de fazer uma banda de um homem só, de Minas Gerais, chamada de O MELDA. Primitivo e tecnológico ao mesmo tempo. Causou estranheza.
Na sequência, o show mais bem equalizado no primeiro dia, justamente a fusão de psicodelia, hard rock e Mutantes que os malucos do PLÁSTICO LUNAR montaram para dizer que viajaram de tão longe, Sergipe, e que tinham algo a dizer ali no palco do Dosol. O hit subterrâneo “Formato cereja” levantou o público com seus riffs setentistas de guitarra e pela execução perfeita e entrosada que a banda apresentou. Uma quase balada ao final deu o toque Arnaldo Batista que faltava. Showzaço.
Depois, no Armazém Hall, os catarinenses do CASSIM & BARBÁRIA mostraram competência para tocar no palco grande, tanto que já foram aos EUA e Canadá mostrar seu som, tentando hipnotizar a plateia com notas flutuantes de guitarras distorcidas e etéreas, sintetizadores antigos e um baixista gigante imóvel. Meio difícil classificar a sonoridade do quinteto, mas misture rock de garagem, Slowdive e os Bee Gees no começo de carreira (sério!) que você chega quase lá. Apresentação competente e com as pessoas aplaudindo.
Os BUGS tocaram no Dosol e explodiram tudo, inclusive os alto-falantes médios, que a partir da metade do show em diante daí mais funcionaram para nenhuma banda. De todo modo, mandaram o barulho de sempre, os riffs de sempre e os vocais nebulosos de sempre, tocando o material do novo EP recém-lançado.
Da Bahia, vieram os doidões do VENDO 147, com uma clone drum (bateria com duas peles de bumbo, ou seja, um baterista toca de um lado e o outro no lado oposto!), virtuose instrumental e tudo instrumental. De onde veio a ideia de fazer um som ninguém sabe, mas que deu certo até demais, isso deu. O povo ficava olhando para os dois bateristas, um deles Djimmy (ex-Honkers), olhando o desempenho, potência sonora e sincronia de ambos enquanto o trio de cordas mandava um rock envenenado e rápido, que terminou com uma sequência de riffs em formato medley (Led Zepellin, AC/DC, Peter Frampton, Metallica e por aí vai) deixando todos em polvorosa. Também, nessa hora, apelaram e jogaram para a torcida! Mas o show foi bem recebido pelo público já bem antes desse final “rock arena”.
O que falar então de OS BONNIES? Mesmo com o som sem os médios já detonados, o quarteto manteve seu nível de selvageria e mandou ver no seu inocente rock’n’roll cinquentista, levando quem estava no Dosol a acompanhar a saraivada das guitarras “arranhadas” do quarteto, só faltando alguma menina da plateia para fazer um strip, mas o local estava tão cheio e quente que não nem bom pensar numa cena destas. Fizeram o de sempre, embora Olavo (baixista) tenha dito depois que o som estava muito embolado em cima do palco e eles ficaram meio receosos. Que nada! Rock no talo, mas sem os médios...
Quantos aos ruidosos REJECTS, tocaram em alto e bom som seu rock à la Mudhoney com voz rouca, bateria que mais parecia um trovão e riffs de guitarra mais graves do que máquinas de metalúrgica. Tudo bem equalizado, terminando com a já esperada versão para “Keep on rockin’ on the free world”, do Neil Young, primeiro canadense presente na noite. Também no final, jogaram a favor. Marcelo (baterista) disse que ficou faltando no final uma faixa nova que era a cara da banda, mas eles preferiram tocar essa. Ficou o clima de celebração roqueira.
Falar dos paranaenses dos SICK SICK SINNERS é tratar de psychobilly, surf music, Cramps, guitarra Gretsch e contrabaixo acústico de verdade (aquele da altura de uma porta e que já é o excesso de bagagem nas viagens!). Tocar toda essa insanidade no Dosol (de novo, sem os alto-falantes médios estarem funcionando) já seria um ato de selvageria antes de sair o primeiro acorde. Além disto, um microfone falhou, a bateria andou e o trio mostrou som de gente grande, não parando um segundo e mandando uma seqüência de riffs mal assombrados que caberiam em qualquer filme B ou do Tarantino. A plateia foi ao delírio, uma menina queria subir para cantar o tempo todo, um cara com chapéu de vaqueiro texano também estava no palco tentando fazer alguma coisa que não se sabe o quê, os mais agitados começaram a pular do palco em cima dos outros e a festa continuou até o final. Está aí uma banda animada para qualquer festa. Pode chamar os Sick Sick Sinners que não vai ter erro. Ponto para a produção que pagou o excesso de bagagem!
Quando você pensava que já tinha visto tudo, lá vem os baianos dos RETROFOGUETES incendiando o Armazém Hall com surf music, música circense e palhetadas fenomenais de guitarra que marcam a apresentação do trio, que parece ser um quinteto, tamanha é a potência sonora. Ganharam o público com um show animado, engraçado (a dancinha do baixista “Mago Merlin” é hilária) e dedicado às belas meninas de Natal. Tocaram mais duas faixas além do tempo estipulado, isso tudo com autorização do chefão do festival. Isso é que é moral!
No Dosol o duo sergipano THE BAGGIOS, cujo guitarrista também toca no Plástico Lunar, perdeu um pouco sua força de costume devido à aparelhagem de som, já que eles não tem baixo, apenas guitarra e bateria. Tocaram muito material novo, desta vez já cantando em português o seu mix de blues, rock’n’roll e pitadas de hard rock. As pessoas aplaudiram, mas foi um show morno, mais devido ao som do espaço do que pela extrema competência da banda. Em todo caso, vi sendo vendidos vários cd’s dos Baggios depois nas banquinhas. Sinal de que alguma coisa funcionou.
Para terminar a parte estritamente roqueira do festival, a atração mais esperada do dia, o trio canadense DANKO JONES. Apresentação muito bem equalizada, guitarra nas alturas, bateria trovão e a voz semi-raivosa do vocalista tomando conta do lotado Armazém Hall. Todos vestindo preto, o baterista canhoto mostrou técnica, o baixista fez caretas à la Gene Simmons e o próprio Danko Jones provocou a platéia várias vezes (“Se vocês vieram ver um show de rock, por que estão fucking sentados?”), se bem que parecia já tudo muito bem ensaiado (“Vocês da direita, vocês da esquerda, vocês aí lá de trás, vão ficar parados?”, dizia em inglês canadense do norte). Show competente, barulhento e com o amplificador Marshall no volume máximo. Houve quem não gostasse, mas que o rock rolou não há dúvidas. O Danko Jones toca um rock sem muitas firulas (sem solos, dedilhados), mas que funciona, embora meus ouvidos já estejam bem treinados e não vejam muita novidade ou boas melodias em seqüência nos canadenses. Mas ponto de novo para a produção do festival que, ao que tudo indica, perturbou a banda durante três anos para que, até que enfim, eles viessem tocar no Brasil. Vimos como uma banda extremamente profissional toca, e bem.
Quanto ao término do Festival neste primeiro dia, o bailão “Barulhinho Bom”, não pude comparecer devido à intensa dor nas pernas da maratona roqueira. Nuda (PE), Dusolto (RN), Orquestra Boca Seca (RN) e Eddie (PE), devem ter criado um outro clima, mais manso, mais swingado e mais misturado com a MPB, mas isto é uma história para outra pessoa contar, não eu.

ALEXANDRE ALVES é dublê de jornalista, integrante categoria master do Coletivo Noize e simula tocar guitarra nos sombrios The Automatics.

1 comentários:

O Inimigo disse...

A menina que queria subir e subiu foi Sarah (namorada de Tamoinha), cantou sei lá o quê e os caras não gostaram muito não huahuahua. E o vaqueiro era Dastaev. Tava todo cowboy de Caicó.

14 de novembro de 2009 06:30